4# ECONOMIA 3.9.14

     4#1 O PIBINHO AFLOGE O PIBO
     4#2 MEMRIA  O BILIONRIO AUSTERO

4#1 O PIBINHO AFLOGE O PIBO
Com o Brasil em recesso, at os empresrios prximos ao governo se desesperam com a poltica econmica suicida de Dilma Rousseff.

MARCELO SAKATE
 sempre a mesma histria. A cada degrau descido rumo ao inferno da recesso e da inflao alta, Guido Mantega, ministro da Fazenda, reconhece o tombo, pe a culpa em cascas de banana ocasionais, diz que o ambiente externo est desfavorvel e se apressa em dizer que est de posse de indicadores, que s ele enxerga, segundo os quais as coisas vo melhorar logo. Foi exatamente isso que ocorreu na semana passada depois da divulgao de dados do IBGE que mostram que a economia brasileira est parada. Disse o ministro: "O PIB ficou aqum das nossas expectativas. Tivemos problemas localizados no Brasil, mas o crdito comeou a melhorar". Mais uma vez, contra qualquer avaliao objetiva da situao econmica, Mantega reafirma sua certeza de que o Brasil est no rumo certo.  uma temeridade. 
     Os dados do IBGE revelam que nenhum setor da economia produziu boas notcias. Principal indicador de sade de uma economia, os investimentos na expanso da capacidade produtiva afundaram  sinal de que o que est ruim vai piorar.  
     O PIB caiu 0,6% em relao aos trs primeiros meses do ano e 0,9% quando comparado ao de igual trimestre de 2013. Isso significa que em dezembro, quando se apurar quanto o Brasil cresceu em 2014, o resultado menos ruinoso vai ser menor do que 1% e o mais provvel ser zero. Fora da nuvem que obscurece a viso do ministro Mantega e de seus auxiliares, aqui embaixo, no mundo real, o diagnstico do desastre  muito diferente. H uma quase unanimidade entre os empresrios, mesmo entre aqueles com relao prxima com o governo, de que a encrenca  sria e foi produzida nos trs anos e meio do modelo Dilma de economia. Para evitar os custos polticos de enfrentar os problemas econmicos com os instrumentos consagrados, o governo optou pelo controle de preos, pelo descaso com o dficit nas contas pblicas e pela lenincia com a inflao alta. 
     Essas intervenes diretas do governo na vida econmica funcionaram como uma adaga no corao do ente que faz um pas prosperar: a confiana. O empresrio Benjamin Steinbruch, presidente da CSN, a segunda maior siderrgica do Brasil, entrevistado desta semana nas Pginas Amarelas, resumiu o sentimento predominante: "S um louco investe no Brasil". Com seu intervencionismo e centralizao de decises, Dilma conseguiu levar a economia brasileira  recesso tcnica, evidenciada pelos nmeros divulgados pelo IBGE. Entre abril e junho, a produo industrial brasileira caiu 1,5%, enquanto os investimentos recuaram 5,3%. Foi o quarto trimestre seguido de retrao. Mas o governo no desonerou as folhas de pagamento, cortou impostos e deu outros incentivos para estimular a economia? Sim, mas isso nunca funcionou em tempo algum, em nenhum lugar do mundo, quando os mecanismos da criao de riqueza foram paralisados. Os incentivos limitam-se a manter a economia em estado vegetativo e de dependncia total do Estado. Quando o governante se mete a dirigir a economia de um pas, os investidores se assustam, pois no podem exercer seu papel na criao de riqueza, que foi definido assim por um economista ingls do sculo XIX: "A economia de mercado  um ambiente em que algum paga um preo altssimo para ter o direito de correr riscos". A receita para paralisar uma economia, a que foi adorada por Dilma, passa por tirar a iniciativa dos investidores. Ronald Reagan, duas vezes presidente dos Estados Unidos, definiu com brilhantismo essa situao de controle obsessivo do governo para criar dependncia total dos empresrios em relao ao poder central: "Se uma empresa cresce, imposto nela. Se ela continuar crescendo, regule-a. Quando ela parar, d-lhe subsdios". Eis a um slogan perfeito para o governo Dilma. 
     Ablio Diniz, megaempresrio responsvel pelo crescimento do Grupo Po de Acar e hoje na BRF, engrossa o coro dos descontentes: "A indstria foi sucateada pelo sistema tributrio. A Receita Federal nos trata como delinquentes". O nvel de emprego na indstria caiu 3,1% em junho. Jorge Gerdau, que chegou a colaborar intimamente com Dilma, desabafou: "A burocracia estatal brasileira  medieval". Quem apostou no crescimento da economia, como o banco BTG Pactual, de Andr Esteves, agora busca alternativas no exterior. O BTG quer ser o banco de investimentos lder na Amrica Latina e com alcance global. H dois meses, comprou a resseguradora Ariel e o banco BSI, um dos maiores da Sua, e prospecta oportunidades no Mxico. O Pibo, como  chamado esse grupo de megaempresrios, est assustado com os rumos do pas e com o naufrgio econmico do governo Dilma. 
Uma economia estagnada

UMA ECONOMIA ESTAGNADA
Variao do PIB brasileiro em relao ao mesmo trimestre do ano anterior

2010
1 Tri.: 9,3%
2 Tri.: 8,8%
3 Tri.: 6,9%
4 Tri.: 5,3%

2011
1 Tri.: 4,2%
2 Tri.: 3,3%
3 Tri.: 2,1%
4 Tri.: 1,4%

2012
1 Tri.: 0,7%
2 Tri.: 0,5%
3 Tri.: 0,9%
4 Tri.: 1,4%

2013
1 Tri.: 1,9%
2 Tri.: 3,5%
3 Tri.: 2,4%
4 Tri.: 2,2%

2014
1 Tri.: 1,9%
2 Tri.: -0,9%

COMPARAO INTERNACIONAL
Variao do PIB no segundo trimestre de 2014 em relao ao mesmo trimestre do ano anterior.
China 7,5%
Coreia do Sul 3,6%
Inglaterra 3,2%
Polnia 3,2%
EUA 2,4%
Chile 1,9%
Peru 1,7%
Mxico 1,6%
Alemanha 1,3%

ATRASO ETERNO
Jorge Gerdau assumiu cargo consultivo para dar eficincia ao setor pblico, mas no conseguiu vencer a inoperncia estatal: " uma burocracia medieval" 

INVERSO DE PRIORIDADE 
O BTG Pactual, de Andr Esteves, comprou vrias empresas brasileiras, de farmcias a companhia de tratamento de lixo, ao crer no crescimento, que no veio. Atualmente investe na expanso em outros pases, enquanto crtica a concorrncia que sofre do BNDES no emprstimo a grandes grupos 

PUNIDOS POR PRODUZIR 
Ablio Diniz, hoje na BRF, declarou voto em Dilma h quatro anos e colaborou com o governo. Agora se exaspera: "Somos tratados como delinquentes pela Receita Federal 


4#2 MEMRIA  O BILIONRIO AUSTERO
Com obsesso pelo trabalho e desprezo pela ostentao, Antnio Ermrio de Moraes criou um imprio industrial baseado no processamento das matrias-primas nacionais.

     Antnio Ermrio de Moraes conclua os estudos na faculdade de engenharia metalrgica na Colorado School of Mines, nos Estados Unidos, quando recebeu a notcia de que havia tirado a maior nota da turma em uma das disciplinas. Decidiu festejar bebendo, algo absolutamente normal para estudantes universitrios, mas indito para ele. Aos 20 anos, sua rotina na remota cidade de Golden, onde no inverno a temperatura pode cair a 20 graus abaixo de zero, resumia-se a estudar. O pileque de usque no lhe fez nada bem, e Antnio Ermrio foi direto para o hospital. O mdico descobriu que o estudante nascera com um nico rim  nada que lhe afetasse radicalmente a vida, mas uma condio que recomendava no abusar do lcool. 
     Concluda a faculdade, o desejo de Antnio Ermrio, nascido em So Paulo em 1928, era fazer um doutorado, entretanto ele precisou voltar ao Brasil para ajudar o pai nos negcios da famlia. Se o menino  o pai do homem, os quatro anos no Colorado deixaram uma marca no futuro empreendedor. A austeridade, e no apenas com relao  bebida, sempre foi a norma para Antnio Ermrio de Moraes, morto de insuficincia cardaca, aos 86 anos, na noite do domingo 24 de agosto. Ele vestia ternos surradssimos, alguns com dcadas de uso, e quase sempre se apresentava amarfanhado, com a gravata fora do lugar. Nunca quis saber de guarda-costas, nem mesmo quando eram frequentes os sequestros de empresrios. Dirigia o prprio carro, por muitos anos um Santana rodado, de seu escritrio, na Praa Ramos de Azevedo, no centro de So Paulo, at sua casa no Morumbi. Perdeu alguns relgios nesse trajeto, ao ser atacado por ladres no trnsito, e tambm sofreu assaltos na casa de praia e na casa em So Paulo. "Se for para ter segurana particular,  melhor deixar o Brasil", dizia. 
     Sob o comando de Antnio Ermrio e seu irmo mais velho, Jos Ermrio, a Votorantim, originalmente uma indstria txtil, fundada em 1918 pelo seu av materno no interior paulista, transformou-se em um dos maiores conglomerados do mundo. O marco na expanso foi a fundao da Companhia Brasileira de Alumnio (CBA), em 1955, a primeira processadora desse metal no pas. A presidncia do grupo foi assumida por Antnio Ermrio em 1973, depois da morte do pai. "Sempre baseei nossos ramos industriais nas matrias-primas nacionais", afirmou certa vez. O grupo cresceu  feio de seu lder, de maneira disciplinada, com muito planejamento e evitando assumir dvidas e riscos em demasia. Alm do alumnio, as dezenas de fbricas do grupo produzem ao, cimento, celulose e suco de laranja. So 43.000 empregados, em vinte pases. No ano passado, o faturamento superou 30 bilhes de reais. 
     A obsesso de Antnio Ermrio pelo trabalho no era folclore. Suas jornadas no escritrio e nas fbricas iam das 7 da manh s 10 da noite. Era comum dar expediente aos sbados e eventualmente aos domingos. As frias eram raras. Nem mesmo a lua de mel na Europa, em 1953, foi destinada exclusivamente ao lazer. Com a mulher, Maria Regina, conheceu fbricas na ustria e na Frana. Para ele, o fato de ter nascido em uma famlia rica nunca foi motivo para acomodao. Seu pai, Jos Ermrio, descendia de usineiros pernambucanos abastados. Estudou na Colorado School of Mines, a mesma que o filho frenquentaria, e trabalhou em minas ao voltar para o Brasil. Em viagem  Europa, conheceu Antnio Pereira Ignacio, dono da Votorantim, ento com atividades nos ramos de tecidos, cal e cimento. Jos Ermrio foi trabalhar com Ignacio e casou-se com sua filha Helena. A cerimnia ocorreu no hotel Esplanada, em So Paulo, prdio que seria comprado pelos seus filhos para dar sede  Votorantim. 
     Na vida empresarial, Antnio Ermrio amargou a derrota na privatizao da Vale do Rio Doce, em 1997. Outra frustrao dolorida foi na poltica, quando saiu candidato a governador de So Paulo, em 1986. Seguia mais uma vez as trilhas do pai, que fora senador por Pernambuco. No se elegeu. Ficou atrs de Orestes Qurcia. Nacionalista, anteriormente, em 1978, havia assumido uma posio poltica ao assinar, ao lado de outros grandes empresrios, o Documento dos Oito, em que pediam a redemocratizao e recomendavam mudanas na poltica econmica. O empresrio resolveu expressar as suas ideias escrevendo peas de teatro. A primeira delas, Brasil S.A., tratava do mundo empresarial. Depois vieram mais duas, uma sobre a sade pblica e outra sobre a educao. Segundo o socilogo Jos Pastore, seu bigrafo e amigo de vrios anos, o teatro foi tambm a maneira de o empresrio, fechado e muitas vezes distante da famlia, expressar as emoes represadas. Diz Pastore, em biografia lanada em 2013: ''Ele passou a pr na fala dos personagens os sentimentos que no era capaz de verbalizar". 
     No se sabe se a austeridade e a mania por trabalho eram doenas, porm Antnio Ermrio escolheu usar parte de seu pouco tempo livre para administrar um hospital. De 1971 a 2008, foi presidente da Beneficncia Portuguesa de So Paulo, em carter filantrpico. Tambm em 2008, afastou-se do dia a dia da Votorantim, por razes de sade. Dois anos antes, tinha recebido os diagnsticos de Alzheimer e hidrocefalia. Teve nove filhos, dois dos quais j mortos, vtimas de cncer. 


